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"McDonalds tem muito mais a ver com o amor. Por mais que falem que faz mal, eu não consigo parar de comer lá. Mas ao mesmo tempo eu me sinto melhor porque eu peço para mudar o lanche, sei lá, tirar o picles. Eu me sinto como se estivesse personalizando aquilo que é padronizado. Eu acho que amor é mais ou menos assim. Pode ser uma coisa banalizada, padronizada, ser igual para todo mundo. Ou pode ser único, ser personalizado, só seu. Eu acho que nosso amor foi meio assim, só nosso.

Foi tipo o número sem picles.”


Retirado do filme “Apenas o Fim”, de Mateus Souza. (recomendado)

O amor acaba

Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

pcsiqueira:

Tudo que é quebrado, defeituoso, feio, me atrai. O o caos e a feiúra parecem ser o estado natural das coisas. Sempre preferi as coisas como elas são, e não como elas tentam ser. A beleza me atrai de forma diferente, me sinto enganado pela beleza, e nunca gostei de me enganar. 

As coisas belas e certas sempre me pareceram uma tentativa quase desesperada de fugir da própria essência, do estado bruto. Beleza é uma ilusão que todos gostam de se iludir. Querer parecer mais belo me soa como querer iludir. O belo também é falho. O estado natural é falho. Nunca me identifiquei com as coisas belas. O ideal intocável, o tocável inalcançável sempre estiveram há milhas de distância da minha mente difusa e do meu corpo cheio de sangue, dentes, gordura, cabelos e bactérias. O sublime é tão errado quanto o feio.

A pedra polida é preciosa e bela. Incrustrada e estática numa jóia quebradiça a preço de tesouro. A pedra bruta é sólida e banal. Mas rolando morro abaixo quebra jóias, vidros e pernas.

A pessoa polida, preciosa e bela, diz obrigado.

Eu bruto sólido e banal, peço desculpa.

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